sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Dissecando a história de "The Wall" (Pink Floyd)

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Brilhante texto que explica sinteticamente todas as viagens imaginadas por Roger Waters e pelo Pink Floyd, que culminaram na obra The Wall. Essencial assistir o filme, bem como conhecer o disco por inteiro para ter uma compreensão melhor do texto abaixo. Divirtam-se!


Uma visão do disco e do filme The Wall

Na verdade tudo começou com "Animals", que era uma espécie de pré-The Wall, onde Waters, inspiradíssimo no livro de George Orwell "A Revolução dos Bichos" critíca o caráter do ser Humano comparando-o a animais, onde tudo acaba como começa: antes os fazendeiros dominavam seus animais, até estes decretarem uma revolução contra seus donos, expulsando-os. Eles abominavam qualquer tipo de atitude semelhante a um humano, lembrem-se "quatro patas bom, dois pés ruins". Depois de muito tempo, a ganância e o poder sobem às cabeças de seus líderes(os Porcos) que no final acabam agindo igualmente aos seus ex-donos Humanos e começam a se vestir com roupas e andar como Bípedes e no final se torna "quatro patas bom, duas melhor ainda". Então Waters radicalmente desenvolveu sua crítica criando The Wall.

1977
Uma parte da idéia surgiu num desastroso show da turnê In The Flesh de 1977 onde Waters cuspiu na cara de um freqüentador da platéia que invadira o palco. Isso se tornaria um dos temas do álbum. O desastre do show de 77 acabou virando inspiração para a monumental turnê de The Wall que aconteceria nos anos de 80/81. O primeiro show foi marcado por um incêndio logo no inicio quando uma das cortinas acabou pegando fogo devido aos fogos de artifício que eram lançados.
No ano de 82, o tema de The Wall ganha um filme com direção de Alan Parker e o ator Bob Geldof no papel principal. Embora o filme tenha ganhado um excelente reconhecimento da mídia e virado cult film, Waters não ficou satisfeito com o resultado final.

In The Flesh
Embora no álbum a idéia que se passa não seja essa, no filme toda a história se desenvolve em um devaneio do "Sr. Floyd", sentado em seu quarto e olhando fixamente para a porta. Sonho esse formado por lembranças de sua vida (péssimas, por sinal).
Em "In the Flesh?", nosso herói (interpretado no filme por Bob Geldof) nos convida a descobrir o que há por trás daquele olhar frio e do seu disfarce "nazista". E, nessa mesma música, Floyd relembra a primeira desgraça inevitável de sua vida: a morte de seu pai na 2ª guerra mundial (o pai de Waters realmente morreu nesta guerra) ainda na sua infância, pelo avião que aparece no filme e na música.



A Guerra
Guerra é o primeiro absurdo do mundo retratado na obra, e influenciará a personalidade do menino Pink para o resto de sua vida."When the Tigers Broke Free", "The Thin Ice" e "Goodbye Blue Sky" são as músicas que introduzem, junto com "In the Flesh?" , o tema guerra na história.

Critica ao Governo
Aliás, em "Goodbye Blue Sky", pode-se notar uma severa crítica ao Governo, mais especificamente o da Inglaterra. No filme, a bandeira inglesa se transforma em uma cruz fincada no chão e sangrando, significando que por trás do ideal de defender a bandeira se esconde a morte. "Foi assim que o Alto Comando tirou meu pai de mim", diz a letra de "When the Tigers Broke Free"

O Primeiro tijolo no Muro
Outra influência que a morte de seu pai trouxe foi a própria ausência deste no desenvolvimento de Pink. Isso é mostrado na cena em que ele está no parque, sozinho, e encontra um senhor que lhe parecia simpático. Pede a ele para que o ponha em cima do brinquedo. Porém, quando Pink pensou que havia encontrado um pai, o homem rejeita sua mão e empurra-o para longe. Triste, o menino senta no balanço, sozinho, e observa as outras crianças felizes, brincando com seus pais.
E o muro ganha sua pedra fundamental, seu primeiro tijolo. Afinal de contas, a morte do pai na guerra foi para Floyd apenas um tijolo no muro, como diz a música "Another Brick in the Wall Part I".

O Segundo tijolo do Muro
"The Happiest Days of Our Lives" e a clássica "Another Brick in the Wall Part II" (aquela do "Hey Teacher!"), põem em discussão outro alicerce de nossa sociedade: a educação. Roger Waters define a educação como uma alienação (representada no filme pelas máscaras com botões no rosto das crianças), fazendo com que as pessoas, ainda crianças, perca sua identidade própria e pensem o que o Governo quer que elas pensem. O sarcasmo e a violência com que os professores tratam os alunos (segundo Waters) na sala de aula são atribuídos aos problemas que eles (professores) enfrentam em casa com suas "esposas psicopatas e gordas". No filme, o pequeno Pink sonha em ver todos os alunos destruindo a sala, queimando a escola e jogando o professor no fogo, enquanto Gilmour toca seu solo de guitarra. Destruir a escola é uma atitude própria de quem não foi alienado pela educação, e por isso é contra ela. (É isso ai!)

A superproteção da mãe
Outro grande fator que viria a influenciar a personalidade do menino Pink é a superproteção por parte de sua mãe ("Mamãe vai te ajudar a construir o muro"), retratada primeiramente na música "Mother" . As infinidades de perguntas que Pink faz a sua mãe na letra da música indicam a sua dependência com relação a ela. Waters procurou (como não podia deixar de ser) estender as características da mãe no filme a todas as mães, usando frases como "Mamãe vai sempre descobrir onde você esteve", "Mamãe vai checar todas as suas namoradas", "Você será sempre um bebê para mim", entre outras que realmente expressam como são a grande maioria das mães.
"Mãe, será que devo construir o muro?". Aqui já podemos perceber o desejo do menino de se isolar do mundo.





A traição
Ainda em "Mother" , podemos apontar outro tema muito explorado em "The Wall": O relacionamento entre homem e mulher. No filme, aparece o contraste entre o menino curioso, que observa a vizinha trocando de roupa com o binóculo, e o homem revoltado, que prefere o jogo de futebol (observe que nem no jogo ele presta muita atenção) do que fazer amor com sua mulher. Quais seriam as razões que levaram o personagem a perder esse desejo de adolescente? Com certeza, a morte do pai, a superproteção da mãe e a revolta contra a educação podem ser apontadas como motivos suficientes (segundo o autor) para isso.
Com certa razão, devido ao desinteresse do marido, a Sra. Floyd acaba traindo Pink com um líder anarquista. No filme, Pink Floyd liga para sua esposa, mas o amante desliga o fone em sua cara duas vezes. A telefonista diz: "era um homem atendendo". Depois, naquela animação que aparece no início da música "Empty Spaces" (uma das melhores introduções elaboradas pelo Pink Floyd), as flores brigando representam o relacionamento conjugal. No início, elas se esfregam e se acariciam. Num certo ponto, é evidente a representação nos desenhos de uma relação sexual (repare como as flores adquirem formas próximas dos órgãos sexuais). Até que, no fim, uma flor (a que representa a mulher) acaba engolindo a outra. Certamente, Waters quis com este desenho estender a característica de traidora a todas as mulheres, assim como ele fez com as mães e os professores.

Jovem Luxúria
Após a festinha que ocorre durante a execução da música "Young Lust", uma das mocinhas entra no trailer de Floyd. Era a chance dele "descontar" a traição, mas isso não aconteceu. Ao invés disso, numa das cenas mais chocantes do filme, o marido traído põe para fora toda a raiva, quebrando todo o seu trailer em cima da intrusa. Era uma de sua crises ("One Of My Turns").

Another Brick On The Wall Part III
"Don’t Leave me Now" é o momento que a Sra. Floyd abandona Pink e em "Another Brick in the Wall part III", Floyd declara a traição de sua mulher como mais um tijolo no muro, assim como todas as pessoas que o fizeram sofrer: "Vocês não passaram de apenas tijolos no muro"Agora o muro está completo!

Goodbye Cruel World
A partir de "Goodbye Cruel World", ocorre uma mudança muito importante no filme: Floyd, dá adeus ao mundo real, e passa a "viver" no mundo que há dentro de seu muro, que, no filme, deixa de ser uma abstração e toma forma "real". O filme entra então numa fase de extremo simbolismo, com cenas mais loucas e de compreensão mais difícil. 
A história se desenrola em duas linhas: a da vida real e a das viagens dentro do muro.


Hey You
Uma importante fase de Pink que não foi mostrada no filme (que depois foi incluida nos extras do DVD). "Hey You" mostra o momento que Floyd se tocou que estava isolado do outro lado, e não podia mais sair, ninguém podia escutá-lo nem senti-lo.

Viagem no Muro
Durante "Is There Anybody Out There", "Nobody Home" e "Vera", Floyd fica vagando pelo mundo de dentro do muro. Essa "viagem" representa um período de reflexão, sobre todos os motivos que deram origem a cada tijolo. O menino Pink acaba encontrando seu pai morto na trincheira; e a si próprio, na idade adulta, no canto de um sanatório abandonado. Vai à estação ferroviária esperar o trem que trouxe os sobreviventes da guerra, e não encontra o seu pai. "Alguém aqui se sente como eu?".
Enquanto isso, na vida real, ele acaba com todos os pêlos de seu corpo, inclusive as sobrancelhas! Um momento de extrema
  loucura.

Comfortably Numb
"Comfortably Numb" é o cúmulo da tristeza. Sem dúvida, esta música deve ocupar, juntamente com "Another Brick in the Wall Part II", um lugar entre as melhores músicas do Pink Floyd e do Rock mundial. No filme, há uma mistura entre cenas do mundo real e o do muro. Floyd está confortavelmente entorpecido em seu quarto, e é encontrado pelos empresários e companheiros de banda. Os médicos tentam reanimá-lo com uma injeção ("Ok, é apenas uma picadinha de agulha!"), ao mesmo tempo em que as péssimas lembranças de sua vida perturbam a mente do personagem.


Do ponto de vista do mundo real, a injeção causou efeitos colaterais. Sua visão ficou turva, teve de ser carregado até o carro que o levaria para o show, e sentia que sua pele estava derretendo. Do ponto de vista do mundo do muro, este é um momento em que todas as péssimas lembranças se juntam e pressionam a cabeça de Floyd, causando uma revolta tão grande que fez sua pele realmente "derreter" e se descolar do corpo. Tudo isso acontece enquanto David Gilmour executa um dos melhores solos de toda a sua carreira (se não o melhor), expressando toda essa revolta de uma maneira enérgica, mas ao mesmo tempo "bonita".

O significado do Martelo
Outro momento importantíssimo da história: Floyd consegue se livrar da sua pele e, por baixo dela, aparece um uniforme estilo nazista. 
Percebe-se aí a grande influência da morte de seu pai na 2ª Guerra Mundial (lembrem-se que foi esta a guerra contra o nazismo). 
A suástica dá lugar a dois martelos cruzados, representando o desejo de se derrubar o muro, ou seja, se libertar das angústias e viver normalmente.



O motivo dele querer derrubar o Muro
Aqui você deve estar pensando: mas não foi o próprio Floyd que construiu o muro para se isolar do mundo? Por que agora ele quer derrubá-lo?
Para entender esta aparente contradição, você deve se colocar no lugar do personagem. Você com certeza não iria querer se isolar do mundo. Floyd também não. Porém, se aqueles fatos (morte do pai, mãe superprotetora, professor carrasco, traição da mulher) acontecessem em sua vida, certamente no seu inconsciente haveria um desejo de se isolar.
O muro é construído no inconsciente, e nós só nos damos conta de seu tamanho quando ele está muito alto. Traduzindo para a linguagem do mundo real, nós nos isolamos quase sem querer, e só percebemos nosso isolamento quando já estamos quase sem saída para nossos problemas. Neste ponto, você também não ía querer quebrar o muro?

O Show
Floyd vai para o show. Mas, em sua cabeça, atordoada pela injeção e pelo muro, o show toma uma aparência nazista, com braços esticados e tudo o mais. "In the Flesh" e "Run Like Hell" são as músicas deste trecho, talvez o único momento alegre do filme, já que é a parte que ilustra a vontade de sair do isolamento e manifestar os sentimentos. Novamente podemos ver as máscaras de botão no rosto das pessoas ("É melhor você colocar aquele seu disfarce favorito, com os olhos cegos de botão..."), representando alienação. 

Existem duas hipóteses para explicar o significado das máscaras no show:

Pode ser uma nova referência aos governos (com Floyd fazendo o papel de "líder político", alguém como Hitler). Neste caso, o significado da cena seria que todo tipo de governo pode ser comparado ao nazismo, pois todo governo acaba alienando as pessoas através da educação e da propaganda. Podemos muito bem tomar o exemplo do Brasil. Como pode um presidente entregar o seu país ao capital estrangeiro de uma forma tão grotesca e o povo não fazer nada? Acabar com a educação e com a saúde e ninguém perceber? Isso pode ser explicado pelo simples fato de que o nosso povo é alienado, assiste TV demais e acredita em tudo o que o governo diz através dela. Não se importa com a política de seu país e ainda acha que só "Fernandinhos" têm a capacidade de governar. Alienação pura!!!

Waiting for the Worms
A música "Waiting for the Worms" (tradução: Esperando pelos Vermes), além de fazer referência à enganosa propaganda nazista, é o momento da guerra entre os martelos e os tijolos. Representa nossa luta contra o isolamento e suas causas. Mas lutar contra este isolamento não é nada fácil. O muro é mais forte, e em "Stop", Floyd se cansa de lutar. Em seu devaneio, ele é preso por ser "nazista". Na linha real, o guarda encontra "Floyd" cansado do show e sentado no canto de um sanitário, bebericando um pouco da água da privada.


O Julgamento!
Chegamos à fase final da história: a hora do julgamento ("The Trial"). No filme, é uma parte feita com desenho animado, onde cada pessoa que participa da sessão é representada por um desenho louco. Floyd vira um simples boneco, sem movimentos, sem vida, ilustrando a sua impossibilidade de se defender das acusações. É um julgamento tipo "Juízo Final". Podemos ver o professor (em uma cena, aparece um boneco de uma mulher gorda e feia, a mulher do professor, que bate no boneco que representa o professor, que por sua vez, bate no boneco sem vida que faz as vezes de Floyd), a mãe (o abraço dela de transforma em um muro), a esposa, entre outros.



Floyd é culpado por construir seu próprio muro. Aquele Juiz que aparece dando o veredicto final representa a sociedade, o mundo, as outras pessoas. Tanto é que, no final da música, um grande coro grita: "Derrubem o muro". É a representação da sociedade. Ela não se importa se os motivos que levaram Floyd ao isolamento são válidos, se Floyd teve culpa ou não das desgraças de sua vida. O que importa é que Floyd é um isolado e não pode mais sê-lo. Portanto, o muro deve ser quebrado. E assim se faz. Genial!

"Outside the Wall" tem um significado muito bonito: trata das pessoas que estão do outro lado do muro, que amam a pessoa que está isolada, mas não são "vistas" por esta, e algumas delas acabam desistindo. "Afinal não é fácil bater seu coração contra o muro de um louco errante".

As crianças no final do filme representam o que cada um de nós vai fazer após assistir o filme: recolher tijolos do muro de Floyd e começar o seu próprio muro, ou jogar a sujeira fora e tentar viver uma vida normal. Você escolhe!

CONSIDERAÇÕES FINAIS
The Wall é uma obra de arte conceitual. Um dos maiores "rock opera album" da história!!!
A genialidade de seu criador (Roger Waters) vai além do The Wall para quem realmente conheçe a banda. Uma obra de protesto contra o mundo, as suas bases, e as pessoas que o formam. Waters procurou demonstrar como cada fator influenciou a vida do personagem, e como pode influenciar a vida de cada um de nós. Assim como em "The Dark Side of the Moon", Waters procura expor os erros da humanidade e levá-los a reflexão, tirando a alienação.
PINK FLOYD RULES!


8 comentários:

  1. Sou fã do Pink Floyd e tenho esse DVD, quando eu assisti pela primeira vez eu não consegui entender toda a mensagem do filme, mas depois que li este comentário/explicação, eu resolvi assistir de novo, e dessa vez entendi 100% do filme muito obrigada, por facilitar o entendimento da cabeça de Roger Waters.
    -Malu ;D

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  2. Perfeito!!! BRAVO, MAGNÍFICO!!!!
    Voce realmente me fez entender o quão interessante esse filme é e estou muito grato por isso!!
    Aliás, um outro filme, Donnie Darko, tambem é cheio de simbolismos, uma boa pedida para quem gostou e entendeu The Wall.

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  3. Demais, sem duvida uma obra de arte!
    obrigado pela explicaçao entendi a historia,concerteza niguem jamais vai conseguir fazer algo tao bonito e filosofico como the wall

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  4. Acabei de assitir o filme e amei. Até hoje nada se compara a essa obra e apesar do tempo continua tudo igual...educação, política, etc...etc...

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  5. nada se compara a este album ate os dias de hj..

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  6. Só faltou dizer que nisto tudo existem várias mensagens neocomunista de desconstrução dos valores da sociedade ocidental. Como a desescolarização, por exemplo, proposta por Ivan Illich.

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